domingo, 15 de novembro de 2015

Coluna Crônica Jornal de Caçapava: Por quem dobram seus joelhos...



(Jornal de Caçapava, 13 de novembro de 2015.)


Estive em Aparecida sábado passado. Levei minha mãe e minha tia acompanhadas dos meus filhos. Mas antes de tudo eu me levei. Retomo meus escritos sobre o Vale do Paraíba. Essa caminhada que começou pelos mistérios, passando pelos personagens enigmáticos, agora se direciona para os lugares e as pessoas que dão vida à paisagem. Sim, sempre as pessoas.

Reinicio minha caminhada por Aparecida, cidade que nasceu de uma das mais belas histórias do rio Paraíba do Sul. Uma história de fé dos pobres, fé dos piraquaras, fé dos negros escravizados. Fé dos milhares de romeiros que, a cada ano, se dirigem para as margens, agora distantes, do rio de águas sagradas.

Aparecida é uma cidade que, à primeira vista, pode não seduzir olhos estreantes pela beleza. Ruas apertadas, morros, excesso de comércio e ambulantes que impedem um caminhar mais sossegado. Confesso que aprecio mais os arredores da antiga Basílica: história, lenda e devoção se entrecruzam com a diversidade de cores e pessoas. Jovens, crianças, idosos carregando as marcas do tempo e um semblante de esperança do que buscam.

As pessoas são o que de mais especial encontramos em Aparecida, além, claro, da substância do conceito de mãe. Isso ainda mistério para a humanidade.

Já tive a tentação e pouca humildade de achar absurdo alguns pagadores de promessas; quando via aquelas pessoas se arrastando, ajoelhadas, me vinha a soberba de pensar que era demais. O tempo, o amadurecimento e a vida se encarregam de nos dar as, realmente, importantes lições. Hoje, quando vejo os pagadores de promessas, em sua entrega mais profunda, só me vem ao pensamento que cada um sabe por quem dobra seus joelhos.

Sim, por quem. Por si mesmo, por outros; sempre por quem.

Desta feita, passei na redação do jornal O Lince, conversei com Alexandre Lourenço Barbosa sobre livros, jornais, histórias e pessoas as quais prezamos muito. Ganhei livros muito especiais e tomamos um café maravilhoso feito por sua esposa. Depois de “romeirar”, passando pela passarela, olhei com olhos de amor aqueles que dobravam seus joelhos e pensei nos tantos viveres nossos de dores, alegrias e gratidão.

Amém!

Sônia Gabriel


Típica...








segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Coluna Crônica Jornal de Caçapava: Considerações de fim de tarde.


(Jornal de Caçapava, 29 de maio de 2015.)





Coluna Crônica Jornal de Caçapava: Passado que alimenta a poesia.



(Jornal de Caçapava, 24 de abril de 2015.)


Por esses dias, estive numa apresentação musical no Cine Santana, espaço que preenche a geografia e as emoções de quem vive e ou trabalha (como eu) no mais charmoso bairro de São José dos Campos. Em se tratando de lugares há aqueles que são suntuosos, chiques, populares, da moda, glamourosos; mas pouquíssimos, nos dias de hoje, têm alma autêntica. Santana é um bairro que além de muitas outras agradáveis características, tem essa alma, um jeito tão peculiar que nenhum outro bairro poderia se igualar. Coisas que só entende quem sempre atravessa a ponte seca.

Mas voltando ao Cine Santana, recebi das mãos do autor Jorge Pessoto seu livro “O Pretérito das horas” quando da minha ida para apreciar boa música. Delicado presente que muito me honrou. Agradeci a gentileza e me propus a ler durante a semana, pois os dias estão lotados de apostilas para dar conta de técnica leitura. Já em minha casa, a curiosidade foi mais urgente. Li de uma tacada só, pois é prazerosa a caminhada por suas linhas cheias de “saudade”; “tesouros perdidos” até que alguém se preste a procurá-los e mereça achá-los; moças esperando amores; “poetas embriagados” que creio saibam viajar pelo passado e pelo presente e “poetas falidos” (intrigante, eu admito). Jorge Pessoto escreve como quem fala de um parente muito próximo, escreve com intimidade com as vielas que se propõem a eternizar. Contraditoriamente, viajei tranquila pelas antigas ruas lapidadas por suas histórias em versos; ruas que ele diz esquecidas, das mortas cidadelas das quais ele não se esquece. E por não esquecer-se as mantém vivas. Se agora é nesse exato momento, o passado é uma imensidão de, licença poética, agoras que faz aquilo que chamamos de hoje.

O Vale do Paraíba é assim, real ou fictício por desejo ou por ignorância daqueles que dele querem o que querem. Sinto que o autor se alimentou da vontade nascida de uma saudade (a que ele tanto recorre, legitimando-a), reconhece e nos entrega o “O Valor das Miudezas”, nos descrevendo a velha costureira e eu imagino, a partir de sua descrição, que o melhor que costurava eram os sonhos; que o que dava liga aos seus cozinhares era carinho; que de tão singela alimentou o imaginar do autor. Cidades mortas cheias de gente viva, com pessoas que esperam enquanto descansam da labuta e anseiam pela colheita e zelam pelas plantas e esperanças, amados pelo Paraíba e pela Mantiqueira enigmáticos. Vale do Paraíba, dos que andam por suas ruas, margens e morros...

Naquela página fiandeira, lamentei pelos vestidos nascidos “para as missas / E, raramente, para casamentos.”, pois eu amo casamentos. Ah, as donzelas que Jorge Pessoto descreve; melhor lerem, sinto que guardam histórias que não podemos. E aqui, me atrevo a considerar, Jorge, que quando os “sonhos escapam” é para viverem, sonho quer ser realizado, escapa para SER. Dos seus que escaparam encontraram-se com a impressora, acertei? Mas se os sonhos escapam, a alma foge para a rua, pois na rua o olhar para o casarão é mais amigo e se “a alma quer um porto” o busca por meio da poesia. Percebo os amores que quase fogem do controle do seu teclado, mas não se evidenciam deixando sempre um ar de mistério de algo que ainda não foi dito; há um aparente romance entre a alma e o tempo em seus versos, ambos se desencontram, o autor aqui se torna o arquiteto a construir ruelas, ladeiras, janelas e praças para que esse encontro se faça?

Encontrei muita graça quando em “O Passeio de Casa até a Praça”, a tinta desenhou “um sossego desesperador e inquietante.” E mesmo diante desse retrato vejo que o observador não se impediu de sorver as belezas do caminho e elas estão aqui linha após linha, carregadas das nuances, cores e humores do seu autor que enfim não esteve a “poetar inutilmente e sem sentido”.

Prezado autor, eu não sou talhada para a crítica nem nunca serei, meu ofício em relação às letras é outro, vivê-las e apenas. Não tenho a competência para analisar literariamente seu trabalho, mas posso como leitora dizer que foi um prazer ler suas linhas e me vi, sim, muitas vezes, caminhando por nossas antigas e sedutoras ruas vale-paraibanas repletas das histórias que eu tanto amo. Obrigada por escrever. Sucesso.

Sônia Gabriel


Jornal O Lince - Aparecida



Alexandre Marcos Lourenço Barbosa, seu trabalho sério e competente já abriu as portas para muita gente. Eu sou fã do Jornal O Lince, e mais do que fã da leitura, sei da importância que o jornal tem para o Vale do Paraíba. Minha coleção se ampliou com sua generosidade e pretendo continuar com essa leitura atenta. Ah, a edição do livro "Dez histórias", do especial Tom Maia, está excelente; já estou me deliciando com as histórias. Foi um prazer revê-lo, é uma alegria continuar nossas conversas. Obrigada pelo carinho com que recebeu minha família (café maravilhoso!). Em março, estarei ai... Bom trabalho para todos nós! Paz e bem!





domingo, 13 de setembro de 2015

Versos Diversos SESC São José dos Campos - Convite - 2015



Caros amigos, 

Reservem essa noite para mim? Recebi o convite do SESC para dividir com vocês minhas impressões de um dos meus livros preferidos, uma obra que me inspira em muitos momentos de criação e na vida...
Venham conhecer um pouco sobre a obra sob o olhar de uma leitora apaixonada por Baltasar e Blimunda, criações de José Saramago em 'Memorial do Convento'. 
Espero por vocês para um bom bate-papo.
No SESC São José dos Campos, dia 17 de setembro, quinta-feira, às 19h30min.




Paz e bem!
Sônia Gabriel

Foi lindo! Compartilho as imagens e gratidão!












sábado, 29 de agosto de 2015

VI Dia Valeparaibano de Contar Histórias - Uma história de Brasilino Neto.



Encerrando nosso dia de contar história com categoria...



Inteligente sim, forte não.

 O Pedrão outro dia contou uma história que igualmente fez com que todos rissem pelo fato e pelo jeitão que ele desfia suas narrativas.

Disse ele que trabalhava com o Carlão, seu amigo também de quase dois metros, na Fazenda do Tião Mário, ali nas redondezas de minha casinha.

Que estavam fazendo um trabalho e se valiam para isto de uma carroça puxada por um burro daqueles no tamanho dos dois, dele e Carlão, “pois o bicho tinha mais de sete parmo de altura”, de nome de Geringonço.

Disse Pedrão que no decorrer do trabalho, no período da tarde o Geringonço, certamente por achar que já havia trabalhado demais, empacou e não ia nem pra traz e nem pra frente.

Como se não bastasse ele ainda se deitou e torceu o varal da carroça do Tião Mário, que tinha verdadeiro ciúme dela, pois segundo o Pedrão sabia, ela havia sido herdada do pai Chico Mário.

Neste instante Carlão ficou meio apavorado e nervoso pelo que ocorria, e com medo que o burro se movimentasse e quebrasse o varal, e se isso acontecesse o que ele diria ao Tião Mário ?

Continuou Pedrão a narrativa.

Carlão mesmo nervoso ainda tenta demover ao Geringonço para que levantasse numa boa, mas o burro se fazia de desentendido e nem bola dava pra o que o Carlão falava e continuava ali deitado, remexendo e arriado e preso à carroça.

Quando Carlão viu que o negócio estava ficando feio e que o burro poderia quebrar o varal o que deixaria Tião Mario louco com ele, sua paciência acabou.

Foi lá soltou o arreio, levantou o varal e tocou o animal para que ele se levantasse, quando então, pensou Carlão, “eu coloco o arreio nele e novamente na carroça pra completar o trabalho e descarregar o material que nela estava”.

E nada do Geringonço se mexer.

Neste momento o Pedrão, pra tirar uma com a cara do Carlão, falou para ele: “Carlão o Geri não tá nem ai co cê. Ele só tá oiando ocê com o rabo do zoio e só não tá dano risada por que ele não sabe ri, mais eu tô achando isso muito engraçado, pois quem vai tê que puxá a carroça até o manguero é ocê”.

Carlão muito irritado pela situação e pela gozação do Pedrão falou: “A é assim ? Então Pedrão ocê vai vê quem pode mais”.

Carlão deu uns passos na direção de Geringonço, juntou no pescoço do animal e à força tentava fazer com que ele se levantasse e o Pedrão vendo aqui somente ria da irritação de Carlão, pois o Geri nem bola dava a ele.

E pra cutucar a onça com vara ainda curta e irritar mais o Carlão, Pedrão chegou perto do Geri, que é como ele chama o animal, com o Carlão agarrado ao burro e falou: “Geri, vô dá um coseio procê: Se eu fosse ocê eu levantava e puxava a carroça até o manguero pra descarregá, e ficá tudo resorvido, pois ocê vai tê desvantage com o Carlão, pois eu acho que ocê é mais inteligente que ele, mas mais forte ocê não é, e oce só vai levá a pior. Te aconseio, levanta”.

Completou Pedrão: “Neste instante o Carlão dá uma oiada pra mim, larga o Geri e parte pro meu lado P da vida, com certeza pra me dá uns tapas, e memo sendo desse tamanhão que eu sô, cá réiva que o Carlão tava não tive outro jeito se não dá uma corrida pras coisas não ficá pior. O Carlão também ameaçô uma corrida mais parô uns metro à frente xingando toda minha famia, principarmente minha mãe e pedindo que não falasse mais com ele.”

Pedrão, mesmo tendo dado uma corrida ainda não se deu por vencido e fala pra Carlão: “Tá bão, então nois tamo de mar um co otro, só quero sabê com quem que ocê vai pras farra, vai tomá umas cachaça e proseá nos finar de tarde. Dexa está”. Virou e saiu andando com os passos meio ligeiros e com o rabo de olho observando se Carlão não vinha atrás.

Do topo do morro viu que o burro Geri se levantou e pensou, já tá tudo perdido mesmo, então perdido e meio e gritou pra completar a irritação do companheiro:  ‘Carlão, viu ? O Geringonço escutô meio conseio e viu memo que ele é mais inteligente que ocê, mas mais forte ele não é, então por isso ele se levantô’.

O Gerigonço se levantou, mas o Carlão sentou no barranco e ali ficou um tempinho de cabeça baixa olhando pra o burro e por vezes ao Pedrão que do alto do morro observada tudo, depois Carlão deu continuidade na caminhada com o animal puxando a carroça e pondo fim à labuta diária.

Carlão ficou quinze dias sem falar com Pedrão, mesmo continuando a trabalhar junto no dia a dia, mas num final de tarde se encontraram no boteco onde ‘faziam ponto’ e Carlão então falou: “Cumpadre Pedrão, senta aqui pra nois tomá essa cerveja junto e trocá uns dedinho de prosa”, como se nada tivesse acontecido e não tocou no assunto da empacada do Geringonço.

Continuaram bons amigos e companheiros da lida diária, da prosa, da cachaça e do compadrio. Trabalham e convivem e são bons amigos, compadres e felizes.


Brasilino Neto



VI Dia Valeparaibano de Contar Histórias - 2015 - Uma história de Paulo Roxo Barja.


Com o sabor do coletivo...


 O STROGONOFF do MEDO

Essa história é mesmo estranha.
Eram só dez da matina;
fui comer strogonoff
sentado lá na cantina
e já estava ansioso
esperando uma menina...

mas o tempo foi passando,
acabou-se meu recreio
e fiquei desconsolado
pois a menina não veio.
Na boca, um gosto esquisito
aumentava o meu receio.

Depois que voltei pra casa,
fui assistir o jornal:
falava-se do sumiço
de adolescentes. Brutal, 
o apresentador dizia
que era caso policial!

Ao longo de uma semana,
cada vez mais um sumia.
Eu fiquei desesperado:
já vai chegar o meu dia!
Resolvi investigar
e ver o que descobria.

A caminho da escola,
vi um restaurante novo:
"Promoção de Strogonoff
 para alimentar o povo!
 Dois reais, o prato cheio:
 é melhor que pão com ovo!"

Assustei, ao ver o lixo
que já estava na calçada:
vi uma blusa da escola
toda de sangue manchada
e um anel em que havia
uma palavra gravada.

Era um nome apenas: Lara.
Do colégio então lembrei:
a Lara tinha sumido...
entendi tudo, já sei!
Porém, nesse mesmo instante,
enjoado, vomitei.

Quando enfim criei coragem,
avisei policiais.
Restaurante foi fechado
e não abre nunca mais.
O assunto virou manchete 
nas páginas dos jornais.



Paulo Roxo Barja


 

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

VI Dia Valeparaibano de Contar Histórias - 2015 - Uma história da Babi.



video


Pois há histórias que são eternas...



VI Dia Valeparaibano de Contar Histórias - 2015 - Uma história de Giselle Lourenço.



Toda história tem uma história, vejam...


"Discurso sobre o Dia do Vizinho, pronunciado no dia 20 de agosto de 2015 por ocasião da comemoração do aniversário natalício de Cora Coralina no encontro literário “O Poder da Palavras” em São José dos Campos.
Vizinho: palavra de origem latina (vicinus). Significa "aquele que é da mesma aldeia". Aldeia, por sua vez, significa "um loteamento de pequenas proporções".
Avizinhar-se então, poderia ser entendido como relação com aquilo que está perto. Foi assim que viveu seus dias sobre a terra a Dona Cora Coralina. Mulher que soube estabelecer uma relação com tudo que lhe rodeava:
Na vertical, sob seus pés, o mais próximo era a terra. Seu chão de terra, como ela falava. Uma vez percebido seus pés próximos ao chão, nunca mais deixou de reconhecer que a força e o sustento lhe vinham da terra. Foi uma cultivadora de terras, entre sementes, entre flores, entre frutos... No milharal de sua gleba, a expressão máxima de seu cuidado. Portanto, mulher vizinha da terra. 
Na horizontal, percebeu que nenhum de nós é sozinho no mundo. Aprendeu, desde muito cedo, que a relação com o outro é o que nos dá uma ideia de nós mesmos e que é no trato diário com as pessoas que retiramos da vida o sumo bem. Entre amigos, construiu sua fortaleza de pedra. Portanto, mulher vizinha dos homens.
Mas há uma vizinhança em Cora Coralina que precisa ser compreendida para além da rua, para além do bairro, para além do prédio...
No tarde da vida - expressão dela própria - suas portas estavam abertas para o Brasil e para o mundo. Na mocidade, estava acessível a quem dela quisesse se aproximar, dado o teor de suas crônicas e a profundidade de suas exortações, pois só fala de coisas profundas quem não tem medo da intimidade.
Intimidade é algo que, hoje, está em desuso. Intimidade exige compromisso, exige cuidado. Não temos tempo para cuidar. Cada um por si; deus, se ainda não morreu na contemporaneidade, talvez não seja por todos. E assim seguimos, ignorantes do significado de "vizinho". 
Avizinhar-se é para quem tem disposição, para quem tem vitalidade na alma. A mesma vitalidade que pulsava no coração da Mulher-Monumento de Goiás, que avizinhou-se do Brasil e que hoje, tendo deixado tão estimada herança em suas obras, nos ensina e nos inspira a uma vida mais vizinha.
Diziam os que conheceram Cora que ela mantinha zelo e cuidado pelas fontes e nascentes. Dizia que era necessário cuidar da fonte. Sabedoria ambiental e humana! Cuidar do vizinho é cuidar da fonte. A célula que manterá nossas relações e propulsionará a fraternidade universal começa em nosso raio de visão e de ação. Cuidando do vizinho, que é a luz da rua, cuidamos da fonte de energia que propagará o amor em nossos dias e para as gerações futuras.
Em sua mensagem, Cora dizia que a sua geração não a compreenderia... Portões trancados, correntes, cadeados, muros. É uma convenção trancar-se, e às vezes necessário também, pois desacostumamos do cuidado. Se alguém se abre, se doa, inspira outros à doação, dificilmente é compreendido. Eu receio que não somente a geração da poetisa não a compreendeu, mas também nós, ainda hoje, somos resistentes e ignorantes de muitas de suas mensagens. Estamos num processo. Aqui, nesta geração – a minha geração - começa um desvelar de Cora, recebendo sua mensagem com inquietações; mas ainda há muito a ser contemplado e um véu a ser rasgado sobre a grandiosa espiritualidade que abarca sua poesia viva e escatológica. 
Faço votos de que, ao menos, o esforço da proximidade e da vizinhança seja, por nós, melhor considerado e que Cora, com seu arsenal de bons amigos, nos ajude a cultivar os nossos.
Encerro com um trecho/pergunta de sua autoria quando da apresentação do Dia do Vizinho em Andradina (1968), para que os brasileiros de meu tempo, tão carentes de vizinhança (e eu me incluo nisso), em um momento de incertezas e desencontros no qual vivemos, possam enxergar nos versos coralineanos algumas luzes para o cultivo de nossas fontes mais naturais:
"Por que nos fechamos tão hermeticamente na nossa rudeza individual se a vida nos põe sempre juntos em encontros frequentes e cotidianos e se temos tanto para dar de nós e tanto para receber dos outros?..."


Fonte: Cora Coralina, Raízes de Aninha. Ideias e Letras, 3ª ed., 2011


Giselle Lourenço


VI Dia Valeparaibano de Contar Histórias - 2015 - Uma história de Sonya Mello.



Apreciem a delicadeza dessa história...


"Mistérios de Cachoeira

No Vale do Paraíba, há mais mistérios do que se pode imaginar. Tive uma experiência que eu diria ter sido, “sobrenatural” e aqui, vou relatar.
Estava fazendo uma obra, em homenagem à cidade de Cachoeira Paulista. Baseando-me numa foto feita pela escritora Sônia Gabriel, pintei uma rua com várias casas brancas, de portas e janelas azuis. Como Cachoeira Paulista é a terra natal da escritora Ruth Guimarães, decidi fazer uma homenagem à ela e assim, defini uma daquelas casinhas como sendo dela e a coloquei em frente à casa escolhida.
À frente da escritora, eu deveria pintar uma rua mas, achando pouco criativa esta ideia, decidi fazer passar ali, o Rio Paraíba. Fiz nele algumas “ondas” e, para deixá-lo colorido, decidi pintar também uma canoa atada à beira do rio.
A obra ficou pronta e a deixei de lado.
Comecei então, a fazer outra obra, só que desta vez, em homenagem à cidade de São Bento do Sapucaí. Nesta obra, estou homenageando a escritora Eugênia Sereno e seu tio, o jornalista Plínio Esteves Salgado. De repente, me deu “um branco” e me esqueci que grau de parentesco era Plínio Salgado, de Eugênia Sereno. Tomei nas mãos, o livro “A Menina dos Vagalumes”, de autoria de Sônia Gabriel e Rita Elisa Sêda, e comecei a folheá-lo para encontrar a informação que eu precisava.
Na página 53 do livro, me deparei com a seguinte informação: ...”Realmente, o Vale do Paraíba tem uma bela safra de diamantes intelectuais. Olga de Sá nos apresenta um deles: Ruth Guimarães, escritora, jornalista que ‘nasceu em Cachoeira Paulista e está integrada em sua cultura e paisagem como os artesões que ama, como o Rio Paraíba e a Serra da Mantiqueira’. No romance Água Funda, Ruth descreve a vida da Sinhazinha Carolina que se apaixonou por um homem de 20 anos de idade e essa foi a sua ‘disgraçera’, pois ele roubou tudo que ela tinha. A história tem densidade poética e faz com que o leitor viaje pelos lugarejos apresentados sinestesicamente. ‘A gente passa nessa vida, como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco e depois não fica mais nada’.
Quando li esse trecho do livro Água Funda, me deu até um arrepio: eu havia pintado exatamente a água bolindo e a canoa amarrada às margens do rio. Tinha tudo haver com a obra da escritora homenageada. Isso, para mim, é a mais viva prova de que o Espírito Santo de Deus age em nós, se permitimos. Peço perdão à Ruth Guimarães pela minha ignorância em relação à sua obra, que agora, irei pesquisar. Mas tenho que manifestar meu espanto pois, não acredito em coincidências mas, em providências!
Ruth Guimarães, é para a senhora que eu dedico essas palavras! Através de sua existência, pude viver uma experiência, no mínimo, inexplicável. Eu pintei a “história” de uma obra que eu ainda não conhecia. Sou grata pela sua presença, Ruth Guimarães, fazendo diferença na minha vida, de um modo tão “sobrenatural”!"


Sonya Mello


VI Dia Valeparaibano de Contar Histórias - 2015. Uma história de José Bueno Lima



Curtam essa especial história...Obrigada por compartilhar, caro JBLima!



"O TÚNEL DO TEMPO

Naquele belo domingo de início da primavera, Márcia, Alberto e os sobrinhos Marília e Gabriel, conforme planejaram, às nove horas já estavam na plataforma 2 da estação ferroviária de Santo André. Todos ansiosos para chegarem ao destino, Paranapiacaba, onde estava sendo realizada a I FLIPARANAPIACABA, feira de literatura promovida por um grupo de literatos de Santo André.
A chegada da composição não demorou. Sua lotação estava regular, de modo que o grupo não teve dificuldade em adentrar no trem, e de se acomodar num conjunto de poltronas próximas.
Paranapiacaba, como todos sabem, trata-se de um distrito histórico do município, que nasceu em virtude da estrada de ferro construída pelos ingleses que vieram explorar o transporte, originando no local uma típica vila inglesa. 
Ela fica bem no alto da Serra do Mar. Dali, como o significado do nome indica, traduzindo-se do tupi-guarani, avista-se o mar, numa paisagem deslumbrante. Seu trajeto até o litoral é íngreme, sendo que a descida de trem é feita através do chamado sistema “endless hope” (sem fim), o funicular. A paisagem é maravilhosa, pois, além da mata densa, há inúmeras cachoeiras, atraindo os praticantes de esportes radicais, que utilizam o caminho para chegarem ao litoral. É deveras perigosa a descida a pé, sendo comum grupos se perderem durante o trajeto.
Bem, além de usufruírem a beleza natural do lugar, Márcia, Alberto e os sobrinhos, iam com o objetivo de visitar a feira de literatura, como amantes que são de livros.
A viagem não é demorada, mesmo porque, após a parada em Santo André, a composição segue direto até o local desejado. Sendo uma região montanhosa, a estação férrea fica na parte baixa da vila, enquanto que as atividades da feira, no Clube Lyra Serrano, se realizam na parte alta.
Porém, ao descerem do trem algo inesperado, diferente aconteceu.
Uma nuvem, uma bruma desceu sobre eles, não demorando mais que alguns segundos, e eles se viram saindo de um verdadeiro túnel do tempo, vestidos à moda da época imperial em que viveu Irineu Evangelista de Souza, o Barão e Visconde de Mauá, o idealizador e custeador da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, em 1867. Os construtores ingleses denominaram-na São Paulo Railway Company-SPR. Seria sua inauguração. Num lampejo, leram cartazes anunciando a presença, naquela hora e dia, daquele a quem se devia a existência do lugar, o Visconde. O Imperador Dom Pedro II, por motivos de saúde, não poderia comparecer. 
Todavia, tal como aconteceu, em segundos se deu a volta à realidade, e Márcia, Alberto, Marília e Gabriel seguiram o caminho em direção ao local do evento, ainda aturdidos pelo insólito acontecimento de que foram personagens.
Por alguns momentos, foram como membros da corte real brasileira.
Dias depois, pela manhã, encontraram sob a porta, as fotografias dentro de um envelope onde se lia:
Com os cumprimentos do Senhor Irineu Evangelista de Souza, Barão de Mauá..."



José Bueno Lima




quinta-feira, 27 de agosto de 2015

VI Dia Valeparaibano de Contar Histórias - 2015. Uma história de José Antônio Braga Barros...


Braga, tinha que iniciar com você! E que história... Amei...
Amigos, curtamos nosso dia de contar histórias, celebremos esses delicados e especiais momentos que podemos oferecer aos amigos, ao próximo.
Paz e bem!
E um mundo de boas histórias...


"Velório em Minas é um caso sério.Sempre fui conformado com a finitude. Entretanto, cada vez mais percebo a brevidade desse hiato, chamado vida, situado entre o nascer e o morrer. Isso não me perturba. Ao contrário, revigora em mim, os sonhos, as vontades de deixar marcas, a alegria do convívio, “eterno, enquanto dura”, com meus amigos e familiares. O mês de agosto, nada contra os que nasceram neste mês, ou compraram e venderam, casaram e são muitos felizes. No entanto, para evitar dar sorte ao azar, recomenda-se, no oitavo mês do ano, cada um ficar quieto em seu canto, aguardando a primavera chegar. Sei que não foi fácil. Fora os panelaços, fora os diz que diz, a promoção da crise, as denúncias premiadas e os habeas corpus preventivos, coincidentemente, as bruxas estavam soltas. Por aqui, é costume – para anunciar as mortes, os velórios e os horários dos sepultamentos – nos alto falantes da matriz. Tocarem aquela bendita música que deixa todo mundo de orelha em pé, para saber quem foi desta para uma melhor. , E não é que anunciaram, com o patrocínio da funerária que o Carlinhos do Zé Paulino havia falecido. Amigo desde o tempo de criança. Dono de uma risada que enchia o quarteirão. Irreverente. Mordaz em suas críticas, mas amigo de todo mundo. Era daqueles que não perdia a piada. E não mandava recados, falava ele mesmo diretamente, na lata, o seu chiste, acompanhada de sua risada característica, espalhafatosa. Para um casal perguntou primeiro para a mulher: - Quantos filhos você tem? Ela suavemente respondeu: - Dois. Na mesma fração de segundo se vira para o marido e indaga: E você, tem quantos? E já dá aquela risada, maior que a do Jefinho, que apesar da perna amputada, também era dono de uma risada que enchia a praça. De outro sujeito, o Carlinhos, investigou: – Você disse que sua operação de vasectomia tinha sido um sucesso, como é que a sua namorada está grávida? E, sem intervalo já calcou sua risada, deixando o indagado sem resposta. Para a mulher que estava saindo da pedicure foi taxativo: - Para que fazer a unha do pé, se o seu marido já não está olhando nem em sua cara? E não deixando espaço para o desaforo já dava sua gargalhada. Mas, não é que em seu velório - velório em Minas é um caso sério – Na mesma semana, uma moça, de uma hora para outra, partiu, sem nenhum aviso prévio. Cheia de sonhos, de realizações e foi. Pronto. E na dor, na volta do sepultamento, casa cheia de amigos e parentes, naquele silêncio, onde ninguém tem o que falar. Uma amiga, pensa alto: - E não é que o fígado dela estava bom e pode ser transplantado. Vamos tomar uma cerveja em homenagem a ela. E todos abriram a sua latinha de cerveja. Voltando para o caso do Carlinhos, velório é uma das coisas mais democráticas que existe. Entra gente de todas as manifestações políticas e religiosas. Sete e meia da manhã, entra o Quinzinho Feijão, que havia passado quatro meses internado, por causa do alcoolismo. Já chegou bêbado ao velório. Abraçou todo mundo. Homens e mulheres. Uma das irmãs do falecido, para ser agradável perguntou: - Como foi o seu tratamento? Era bom lá? Ele respondeu: - Bom nada! Lá a gente não podia beber... não podia fumar maconha... Teve até um homem que ressuscitou! Todos os presentes em silêncio voltaram o olhar para o Feijãozinho. E a mesma moça retrucou espantada: - Ressuscitou??? - É!, respondeu ele, ressuscitou! Passou uma corda no pescoço e ressuscitou!!! Todos gargalharam em pleno velório do Carlinhos, diante do suicídio do outro! Esta é a minha história desse ano, acontecida no mês de agosto. Tem festa no céu!"


José Antônio Braga Barros


ESCAMBO 114



Saiu nosso ESCAMBO, confiram nos comentários.
É do Lúcio Mauro.
Aguardo o endereço para lhe enviar.
Você vai apreciar a obra e o autor.
Acho que nasce uma amizade, pois são escritores interessantes.

Paz e bem!
Sônia Gabriel

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

ESCAMBO 113





Vejam que lindo presente!
Sílvio Ferreira Leite está doando sua obra Amor e sexo - As expressões do Tantra para nosso ESCAMBO.
Corram, o livro é muito bom!.
Quem leva?

Paz e bem!
Sônia Gabriel

terça-feira, 25 de agosto de 2015

ESCAMBO 112



Saiu nosso ESCAMBO, é do Eddy Carlos.
Confiram nos comentários!
Envia seu endereço (por e-mail) ou mensagem
que envio pelo correio.
Que bom!

Paz e bem!
Sônia Gabriel

ESCAMBO 111





Mais uma doação de Ludmila Saharovsky para nosso ESCAMBO.
Jacareí - Tempo e Memória.
Para os amantes da história e cultura do Vale do Paraíba.

Paz e bem!
Sônia Gabriel

ESCAMBO 110



Saiu nosso ESCAMBO, é da Ana Lygia.
Confiram nos comentários!
Envia seu endereço (por e-mail) ou mensagem
que envio pelo correio.
Que bom!

Paz e bem!
Sônia Gabriel

ESCAMBO 109




Esse ESCAMBO é do livro XV antologia poética - Hélio Pinto Ferreira.
Muita poesia para enfeitar nossa semana.
Quem quer?

Paz e bem!
Sônia Gabriel

ESCAMBO 108



Saiu nosso ESCAMBO, é da Camila Martins.
Confiram nos comentários!
Pode pegar comigo na escola ou enviar seu endereço (por e-mail)
que envio pelo correio.
Que bom!

Paz e bem!
Sônia Gabriel

ESCAMBO 107




Para comemorar nosso Dia Valeparaibano de Contar Histórias, voltamos com o ESCAMBO.
Esquema de sempre, ao primeiro recadinho querendo o livro, uma oportunidade de leitura especial!
Para vocês, Tempo Submerso de Ludmila Saharovsky.
Quem leva?

Paz e bem!
Sônia Gabriel

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Coluna Crônica Jornal de Caçapava: A Lua e o Poeta.



(Jornal de Caçapava, 17 de julho de 2015.)

Estava terminando de fotografar um vasinho improvisado, com cinco flores amarelinhas, quando lembranças vieram precedidas por um sentimento de gratidão. Há algum tempo, não escrevo com tranquilidade dada a correria do trabalho e os constantes estudos, mas quando comecei estas linhas necessitei do tempo mais consistente, pois para viajar por ele não cabem o artificial e as banalidades que insistem em nos tirá-lo. Um tempo proveitoso que ao cabo da missão nos sentimos repletos de satisfação. Nesse espaço de tempo que pertence apenas aos que sabem que é possível viajar por ele, encontrei dois amigos queridos: Lua e Poeta.
Zenilda Lua; muitas vezes já escrevi sobre ela e vocês sabem o quanto a Moça das Saias Coloridas está impregnada em nossas rodas de conversa, saraus e andanças pelo Vale do Paraíba. Lua, como era chamada por seu marido e companheiro de poesia, Réginaldo Poeta, realizou, recentemente, um sarau em homenagem ao nosso querido amigo falecido ano passado. Na ocasião, os amigos se manifestaram, mas eu não consegui; não fui ler, declamar, contar uma das tantas histórias que tivemos tempo de compartilhar graças ao aconchego oferecido pelo casal tão iluminado. Estava emocionada e a ocasião era para alegria e eu sei que poderia silenciar um pouco o ambiente. Lua gosta da alegria e eu compartilho disso.
Ao final do sarau, a mediadora do evento Miriam Cris distribuiu aos convidados as flores que Lua trouxe; é de seu feitio distribuir flores, quantas já me trouxe sempre tão cheia de alegria e bem aventurança. Miriam Cris me entregou as amarelas... Aqui chegamos à fotografia. Minha paixão pela fotografia fez com que eu não resistisse à singeleza da cena. Uma garrafinha de leite de coco, pois o Poeta fez um dos peixes mais saborosos que já experimentei... Na janela da cozinha com um cantinho da cortina de renda, tão nordestina como Lua e seu Poeta, com vistas para a secura desses dias sem chuva manifesto no vidro da janela e, lá fora, o varal com a cobertinha antiga dos remanescentes presentes do casamento há 22 anos...
A foto amadora trouxe-me a antiga morada do casal sempre com as portas escancaradas para os amigos e qualquer solicitante que, claro, se tornaria amigo. Recordei das tantas vezes que o Poeta, entre suas atribuições do trabalho e nos cuidados da família, arrumava tempo para nos ajudar a fazer os convites virtuais, as capas de cordéis, as divulgações dos eventos literários e educacionais. Para o Poeta, poesia era viver entre amigos, compartilhava suas ideias sem receios, se alegrava com o sucesso de todos, divulgava nosso trabalho, presenteava com nossos livros... Já em tratamento e tendo todo o direito do mundo de se reservar e cuidar de si fez convites para o lançamento do meu livro “Ventos Antigos” e, naquele sábado vermelho, lá esteve; presenteou-me com um disco do Lulu Santos, entregue por Lua. Acarinhava-nos e às nossas famílias que se encantavam por ele, pois era evidente que era bom amigo e bom pai de família.

Zenilda Lua, aqui ficam as minhas palavras que não brotaram naquela tarde de sábado, fica também a minha gratidão por ter feito parte dos que entraram pela porta daquela morada onde do encontro entre a Lua e o Poeta nasceu a Brisa. Minha gratidão é um botão entre as tantas flores que já me presenteou com essa generosidade característica dos que têm no olhar a esperança sempre nos consolando. Mais importante que as ideias, que as palavras, que os livros é a poesia da amizade, essa que só nasce onde impera a verdade e o amor. Suas moradas são jardins de poesia.

Paz e bem!

Sônia Gabriel




segunda-feira, 13 de julho de 2015

Semana Literária da AFCLAS em Santos - SP, 2014.


Está faltando tempo para atualizar o blog "Mistérios do Vale" e é uma pena muito grande, pois a maioria dos contatos que me procuram é exatamente por aqui. Mas também significa que os trabalhos estão acontecendo e tomando tempo. Agora, de férias, vou atualizar o espaço e compartilhar com vocês que sempre torcem por mim, me possibilitam o aprendizado da profissão e da vida. Grata sempre.
Ano passado, estive em Santos - SP para uma conversa sobre Eugênia Sereno e o Vale do Paraíba na comemoração dos 28 anos da Academia Feminina de Ciências, Letras e Artes de Santos. O gentil convite veio por indicação de Cláudio de Cápua e a grande escritora Carolina Ramos, vejam a responsabilidade que tive. Um pouco mais sobre o encontro foi publicado na revista Santos: Arte e Cultura, dezembro de 2014 e gentilmente enviada pelo jornalista e escritor Cláudio de Cápua. Muito obrigada pelo convite e atenção, Ana Lúcia de Souza Feijó.
Atenção, gentileza, flores, o mimo de um lanchinho para o retorno, um lindo quadro de presente, a pizza oferecida pelo casal De Cápua adornam a delicadeza de me ouvirem. Foi um privilégio imenso.
Para completar a aceleração do meu coração se sentindo grato, Cíntia Moreira e Flávia D'Ávila foram companheiras impecáveis, me levaram, me acompanharam, me encheram desse sentimento de que realmente podemos compartilhar tudo o que aprendemos. Obrigada, lindas.
Estou sempre à disposição de vocês.
Paz e bem!
Sônia Gabriel






Rumo Santos...









Ana Lúcia Feijó, eu e Carolina Ramos.



Delicadeza da artista plástica Cléo Calixto.






Obrigada pelas imagens, Cíntia e Flávia. É muito bom recordar.





terça-feira, 28 de abril de 2015

Projeto Palavras que moram em nós... no Jornal O Lince.






Palavras que moram em nós...

(Carlos Abranches e Sônia Gabriel. Jornal O Lince, jan/fev 2015)

Foi lançado, recentemente, em São José dos Campos – SP, numa escola da Rede Pública de Ensino do Estado de São Paulo, o livro ‘Palavras que moram em nós’. A obra poética envolvendo educadores e alunos dos Ensinos Fundamental e Médio da E. E. Dr. Rui Rodrigues Dória teve como parceiro e voluntário o escritor e jornalista Carlos Abranches.

O livro ‘ Palavras que moram em nós ’ é o resultado do desdobramento do projeto Almanaque Rui Dória[1], desenvolvido desde 2012 pela Escola Rui Dória. Observando, principalmente, as relações entre pais e filhos, nos momentos dos Conselhos Participativos e nos conflitos ocorridos na escola, optou-se por apresentar aos alunos a oportunidade de terem contato com textos que oportunizassem momentos de reflexão sobre a afetividade no lar. 

A idealização do projeto se construiu tendo como base a obra do escritor e jornalista Carlos Abranches[2], ‘A casa que mora em mim’[3]. O projeto considerou a leitura da obra, encontros com o autor e a produção escrita com foco na memória afetiva concretizada na produção poética. Sonho antigo dos educadores em realizar um projeto literário visando ampliar as possibilidades de leitura e escrita dos alunos, foram consideradas no projeto as habilidades de ler, escrever, reescrever, apreciar poemas, organizar lembranças a partir de relações com seus elos fundamentais e reconhecer suas memórias afetivas como um patrimônio pessoal que poderá alimentar sua existência, significando as ações cotidianas desses alunos.

O projeto interdisciplinar teve nos professores Luiz Vagner Rodrigues Lima, Maria do Amparo Gama da Silva, Ana Marta Terra Cabral, Cristina Arraes da Silva Follmann, Sônia Gabriel, Rita de Cássia do Prado Bonato, Rosângela Rodrigues Dias, Daniela Santos, Rita de Cássia Castilho de Araújo e Maria das Graças Esteves de Souza facilitadores para as estratégias traçadas visando ampliar as possibilidades de produção textual de acordo com as questões mais pertinentes a cada faixa etária: 6º ano – Linha do tempo: a relação do aluno com sua trajetória em família e o apego a sua casa como espaço coletivo (sugestões: História, Português, Matemática, Geografia...); 7º ano – Comunidade familiar e escolar: a relação do aluno com a família e a escola, considerando o apego a sua casa e a sua escola como espaços coletivos (sugestões: História, Português, Matemática, Geografia...); 8º e 9º anos - Transformações físicas e afetivas: a relação do aluno com suas mudanças fisiológicas e afetivas contrapondo sua individualidade ao seu ambiente familiar, em busca de um espaço privado (sugestões: História, Português, Matemática, Geografia, Ciências...); 1º ao 3º anos – A memória afetiva como patrimônio pessoal na formação da identidade do aluno. A importância das lembranças do aluno na formação de sua identidade, considerando a relação com a família e as reminiscências das casas ou casa que habitou como tesouro pessoal.

Todos os educadores de todas as turmas da escola foram convidados a participarem do processo e a produção textual foi maior que a esperada, numa prazerosa surpresa. Foi realizada uma seleção que resultou em 28 poemas englobando as questões pessoais e significativas de alunos ente 11 e 18 anos de idade. Para chegar ao excelente resultado, foram realizados, além do trabalho didático em sala de aula, encontros com o autor Carlos Abranches. Nessas oportunidades, ele apresentou sua trajetória de escritor e sua história de vida considerando suas memórias particulares da infância, que são o norte do seu livro. Esses momentos à disposição dos nossos alunos e professores foram uma singular oportunidade de fortalecimento da conexão leitor–autor–obra, e que também trouxeram à tona a oportunidade dos alunos vivenciarem suas questões, suas dúvidas e seus talentos expressos nos poemas que produziram.

Com apoio da equipe gestora, por meio de recursos do PRODESC[4], a escola[5] publicou o livro ‘Palavras que moram em nós’, com prefácio de Carlos Abranches. Esta foi uma oportunidade ímpar para os alunos que tiveram seus poemas selecionados. Oportunidade de se reconhecerem como autores, de vislumbrarem seus talentos e acalentarem sonhos que podem se realizar através dos estudos e vivências semelhantes. A obra é o reconhecimento do trabalho e comprometimento dos profissionais envolvidos no projeto. 


Carlos Abranches
Sônia Gabriel



Casa ou Lar?

Tem diferença
Entre lar e casa?
Talvez tivesse.
O afeto que dirá!

Mas lar precisa ser casa?
Não! Eu não acho!
Lar pode ser praça,
Pode ser rua
E até mesmo calçada,
Qualquer beira de estrada.

Lar é lugar,
Lugar de afeto,
Lugar de amor,
Lugar de aconchego.

Qualquer lugar
Que faz sorrir,
Que se pode amar,
Certamente é um lar.

Basta se sentir bem
Lembrando-se de alguém,
Solitário ou não,
Pode ser lar também.

Tudo está bem claro:
O lar é o mundo!
E a alegria da vida...
A busca pela paz.
O desejo de ser feliz.

Ana Clara Braga Gonzaga, 14 anos, 9º A



[1] Almanaque Rui Dória é uma publicação que compartilhou, em 2012 e 2013, as práticas pedagógicas desenvolvidas pelos professores da unidade escolar, além de registrar a história da escola e curiosidades do cotidiano de professores e alunos. 

[2] Carlos Abranches é jornalista de formação, mas estudou também Filosofia e Música, tudo pra melhorar seu olhar e sentimento para com a vida. Traduziu em livros algumas de suas reflexões. Três deles são de poesia. O último - "A Casa que mora em mim" - é um relato das vivências na pequena casa da infância, vivida no Mato Grosso do Sul, terra de sua mãe. Nos últimos vinte anos, Abranches vem trabalhando com televisão na região do Vale do Paraíba. 

[3] O livro ‘A casa que mora em mim’, do jornalista e escritor Carlos Abranches foi publicado pela Editora Somos, São José dos Campos – SP, em 2014. 


[5] A Escola Rui Dória, como é conhecida na Zona Norte de São José dos Campos – SP é um patrimônio que abraça gerações de alunos e conserva em sua trajetória elementos afetivos que se perpetuam na memória coletiva da região. A Escola tem sua construção ligada à história religiosa de Santana. Inicialmente denominada Escola Paroquial Olivo Gomes, foi idealizada a partir das necessidades dos trabalhadores da região, observadas por Monsenhor Luiz Cavalheiro, personalidade influente na política e sociedade joseense, durante a segunda metade do século XX. A partir da década de 1980, foi adquirida pelo governo do estado de São Paulo e passou a ter a denominação atual.